A gente tende a valorizar o extraordinário. Uma realização fora da curva, a genialidade de alguém excepcional, um acontecimento que rompe a sequência dos dias. Essas experiências têm seu sabor especial. É bom celebrá-las. O perigo começa quando passamos a depender delas para desfrutar a vida e atravessamos o restante do tempo esperando que alguma coisa finalmente mereça nossa alegria.
Enquanto esperamos, a vida acontece. Alguém prepara o café. Uma conversa se estende depois da refeição. Voltamos para casa e encontramos os rostos conhecidos. Um irmão percebe nossa ausência e manda uma mensagem. São experiências que se repetem com tamanha frequência que deixamos de recebê-las com atenção. A familiaridade vai encobrindo a preciosidade do que temos.
Ouvi, nesses dias, uma canção de Andy Gullahorn intitulada Small Things, “Pequenas Coisas”. Chamou-me a atenção a maneira como ele canta sobre a profundidade da simplicidade da vida. A canção descreve um mundo cheio de coisas brilhantes, de pressões para acompanhar o ritmo e de promessas de que precisamos de mais. Nesse ambiente, podemos avançar na direção do reconhecimento e nos afastar daquilo que realmente amamos. O convite para uma caminhada pelas ruas conhecidas do bairro devolve nossa atenção à beleza que a pressa nos impede de perceber (Andy Gullahorn, “Small Things”, álbum Winning Streak, 2025). …